Lula abre mão do último discurso

Presidente opta por impulsionar aliados na reta final da campanha e envia o chanceler Celso Amorim para representar o país nas discussões, em Nova York Por Isabel Fleck – Correio …

Presidente opta por impulsionar aliados na reta final da campanha e envia o chanceler Celso Amorim para representar o país nas discussões, em Nova York

Por Isabel Fleck – Correio Braziliense

A proximidade das eleições levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pela primeira vez em oito anos de mandato, a desistir de participar da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, a partir do próximo dia 23. Quem abrirá a 65ª sessão em seu lugar seguindo a tradição de o Brasil fazer o discurso inicial será o chanceler Celso Amorim. A decisão, segundo o Planalto, ainda pode ser revertida, mas é pouco provável que Lula deixe o país faltando pouco mais de uma semana para o pleito. O mandatário perderá a última grande vitrine internacional, mas também se esquivará de um possível encontro com o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, que não seria politicamente interessante às vésperas da votação no Brasil.

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Amorim deverá enfocar novamente a urgência na reforma dos fóruns internacionais multilaterais, como a própria ONU, mas também deve fazer um balanço positivo da gestão Lula o que pode funcionar bem para a candidata do PT, Dilma Rousseff, na reta final da campanha. Aproveitando o gancho dos 10 anos dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, Amorim mostrará o avanço do país no cumprimento das metas de erradicação da pobreza e da fome, com modelos como o Bolsa Família, que poderiam servir para outros países. A seu favor, terá os números compilados em março último, segundo os quais o Brasil alcançou já em 2007 a redução de 25% no nível de pobreza extrema, prevista pela primeira das oito metas. Segundo esse levantamento, em 1990 havia 36 milhões de pessoas vivendo com menos de US$ 1,25 por dia no Brasil número que caiu para 9 milhões em 2008.

Apesar da incontestável capacidade do chanceler de levar a mensagem de Lula à assembleia, a ausência do presidente deverá ser sentida ao menos pelos mais de 20 líderes que solicitaram encontros bilaterais com o presidente durante o período. Esta será a primeira vez que Lula deixará o discurso na ONU a cargo do chanceler. Seu antecessor imediato, Fernando Henrique Cardoso, só discursou para a assembleia uma vez em seus oito anos de governo. Isso demonstra ainda mais a importância da opção de Lula que sempre fez questão de representar o Brasil nesse tipo de fórum pelo palanque dos aliados. Até mesmo nas eleições de 2006, quando a sessão anual da assembleia ocorreu 10 dias antes da votação, Lula não deixou de ir a Nova York.

O que é mais importante para ele veio em primeiro lugar. E ele simplesmente definiu como opção mais importante a eleição, explica o embaixador Rubens Barbosa, que representou o Brasil em Washington até o início do governo Lula. Para o professor Amado Luiz Cervo, da Universidade de Brasília (UnB), no entanto, a opção foi calculada levando em consideração não só a condição interna, mas também o público externo. Uma outra boa razão é que a imagem de Lula foi um pouco atingida neste ano por certas opções internacionais, como o caso de Honduras e a iniciativa em relação ao Irã, assunto no qual foi excluído de maneira acintosa pelo governo dos EUA, destaca Cervo.

Segundo o professor da UnB, não era oportuno para Lula fazer essa aparição agora, tanto mais pelo risco de uma saia justa envolvendo um eventual pedido de encontro com Ahmadinejad em Nova York. Ele mantém a imagem que conquistou e não vai enfraquecê-la no fim do seu mandato, avalia. A especialista Cristina Pecequilo, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), por sua vez, considera que havia grande expectativa em relação ao último discurso de Lula. Mas chegou-se à conclusão de que a reta final da eleição é mais importante. Além disso, entre fazer um balanço (no discurso em Nova York) de algo sobre o que há discordâncias e tentar garantir a eleição em primeiro turno, eles fizeram a opção correta, opina, referindo-se às críticas que a política externa brasileira recebeu no último ano por decisões como a de buscar a aproximação com o Irã.

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