Indígenas são obrigados a conviver com cultura do “branco”

Cacique Katia Silene, da etnia Gavião Akrãtikatejê, analisa as últimas duas décadas das aldeias ao longo da BR-222

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Entre os municípios de Marabá e Bom Jesus do Tocantins, ao longo da BR-222, existem 20 aldeias indígenas; trata-se de uma das reservas mais antropizadas do país. Pelo trecho de pouco mais de 60 km passam dois linhões – de energia e telefonia celular –, uma rodovia federal e a Estrada de Ferro Carajás (EFC). Diante disso, toda a cultura indígena acabou se fragmentando e se fundindo com a cultura dos kupen (homem branco).

Quem faz essa análise é a cacique Katia Silene, da etnia Gavião Akrãtikatejê. Ela observa que este 19 de abril, dia dos povos indígenas, é um momento para realizar rituais que ajudem a fazer uma reflexão sobre a identidade dos indígenas nesta região da Amazônia.

A cacique explica que, nesta região, existem cerca de 2 mil indígenas, os quais foram divididos em 20 aldeias nas últimas duas décadas, fragmentando ainda mais a resistência dos povos para negociar com os grandes empreendimentos, como a mineradora Vale e o próprio governo federal.

Nesses 20 anos, o território também foi muito dividido, o que, para eles, é extremamente impactante. “Nosso território é nossa vida. Nossa cultura está na pintura dos nossos corpos,” relata Katia Silene, ao observar que até mesmo a alimentação da comunidade mudou, trazendo doenças inexistentes para eles, como hipertensão arterial e diabetes.

Celular e carrão

Questionada sobre o fato de que muitos indígenas desta região desfilam na cidade com carros novos e celulares de última geração, ela explica que a introdução dessas ferramentas que não integravam a indumentária indígena no cotidiano das aldeias foi algo necessário. Se tornou uma contrapartida pela violência cultural e social que lhes foi imposta e algo que nunca pediram.

“Nós tivemos que se adaptar em dois momentos, com a cultura e o conhecimento do branco, senão nós vamos ser demolidos cada vez mais,” resume.

A cacique também lamenta a cisão social produzida pelos recursos que vêm sendo repassados, em contrapartida, pela utilização do espaço geográfico das aldeias, seja pela ferrovia, rodovia ou pelos linhões.

“Hoje era pra nós estarmos todos unidos brincando, mas o povo tá dividido, cada um na sua aldeia. Então nós estamos vivendo uma desigualdade igual à do kupen, uma desigualdade social que chegou no meio de nós. Não adianta mentir, querer falar que nós tamo bem,” afirma, ao alertar que os rios estão diminuindo e a terra está cada vez mais contaminada, o que inviabiliza a manutenção das práticas tradicionais de subsistência. “Tudo isso é preocupante,” conclui.

Conta bancária

Katia Silene Akrãtikatejê lembra que, quando as primeiras casas das aldeias foram construídas, os indígenas tinham pouquíssimas preocupações, mas logo foram apresentados às instituições financeiras e orientados a abrir contas bancárias, algo que descreve como um desastre.

Ela lembra que praticamente todos os membros da etnia que abriram contas bancárias contraíram débito e ficaram com o “nome sujo”. Na ocasião, lembra, a mineradora Vale pagou todas as contas e limpou os nomes dos indígenas. No entanto, neste 19 de abril se perguntam: será que essa conta algum dia será paga?