Escavações encerram em Marabá sem nenhum vestígio de ossadas de guerrilheiros

Apesar disso, comissão colheu depoimentos de muitos idosos na localidade, o que considera uma vitória, pois muitas pessoas têm medo de falar, em razão do exército ainda ser muito atuante na região.
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A Comissão Especial sobre Mortos e Desparecidos Políticos (CEMDP) encerra nesta sexta-feira (20) mais uma missão na região do Araguaia, onde acompanhou escavações em busca dos corpos de 58 desaparecidos da Guerrilha do Araguaia, movimento guerrilheiro criado pelo Partido Comunista do Brasil entre fins da década de 1960 e metade da década de 1970. Mais uma vez a expedição não achou restos mortais, mas foram colhidos depoimentos de muitos idosos na localidade. A equipe considerou isso uma vitória, pois muitas pessoas têm medo de falar, em razão do exército ainda ser muito atuante na região.

A Guerrilha do Araguaia teve o objetivo fomentar uma revolução socialista, a ser iniciada no campo, baseada nas experiências vitoriosas das revoluções cubana e chinesa. Ela foi combatida pelas Forças Armadas a partir de 1972, quando vários de seus integrantes já haviam se estabelecido na região há pelo menos seis anos. O combate entre guerrilheiros e militares ocorreu na divisa dos estados de Goiás, Pará e Maranhão. Segundo a procuradora federal dos Direitos do Cidadão adjunta Eugênia Augusta Gonzaga, dos 60 desaparecidos, até hoje somente dois foram encontrados desde o início das buscas nos anos 80.

A expedição também se reuniu com representantes da Câmara Municipal em Marabá para alinhar um projeto de lei de tombamento da Casa Azul, lugar para onde eram levadas as pessoas presas na época. No município de Xambioá (TO), a equipe identificou um monumento desenhado pelo arquiteto Oscar Niemeyer abandonado pelo poder público, para o qual também será requerido tombamento.

Desde a última segunda-feira (16) a equipe da CEMDP faz o reconhecimento de novos pontos e realiza visitas a locais de memória.

O grupo é composto por três membros da CEMDP, um médico perito, uma arqueóloga forense, uma bioantropóloga, três geofísicos e cerca de oito familiares de desaparecidos políticos. Colaboram ainda representantes da pericia oficial do estado do Pará e de professores da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa).

A equipe seguiu motivada a coletar o máximo de informações e potencializar as investigações. Nos três primeiros dias o primeiro grupo teve como foco atividades de escavação e coleta de depoimentos nos municípios de Marabá e São Geraldo do Araguaia e o segundo se dedicou ao reconhecimento e georreferenciamento de pontos localizados em cidades mais distantes. “O trabalho é para demonstrar aos familiares que estamos adotando as medidas necessárias para ajudar a elucidar esses casos”, disse a coordenadora geral de direito à memória e a verdade Amarilis Busch.

Segundo a procuradora Eugênia Gonzaga, cada vez mais o Brasil enterra a sua história e a falta de informação sobre esse tipo de evento histórico é muito grande.

Ao final dessa missão será elaborado um relatório. Outras duas expedições devem ocorrer este ano, uma em agosto e outra em setembro, com a presença dos familiares que quiseram estar envolvidos. “A ideia é que ainda seja dando foco para as escavações”, explica Amarilis Busch.

Ação

A ação da Comissão Especial sobre Mortos e Desparecidos Políticos conta com o apoio do Ministério Público Federal (MPF), por meio da Procuradoria da República no Município de Marabá, do Ministério dos Direitos Humanos (MDH), Ministério da Defesa, e outros órgãos.

A comissão foi instituída em 1995 e considerada uma das primeiras conquistas dos familiares na luta por medidas de justiça. Tem, entre suas finalidades, proceder ao reconhecimento de pessoas mortas ou desaparecidas em razão de graves violações aos direitos humanos ocorridas após o regime militar de 1964, promover esforços para a localização dos corpos e adotar medidas para o cumprimento das recomendações da Comissão Nacional da Verdade.

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