Conflito no Leste Europeu vai afetar o agronegócio brasileiro

Custo de produção da soja no Pará pode inviabilizar o negócio
Depósito de fosfato em galpão de empresa russa

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Brasília – Enquanto o mundo repudia o Ato de Guerra da Rússia, que invadiu sem provocação a Ucrânia, o conflito sangrento no leste europeu é fonte de grande preocupação no Brasil, não apenas pelas perdas humanas num planeta já traumatizado pelas milhões mortes devido à Covid-19, como também por um fator econômico que pode afetar o desempenho e competitividade da locomotiva nacional: o agronegócio. A Rússia é a maior fornecedora de fertilizantes do Brasil, enquanto a Ucrânia se destaca na produção de milho mundialmente – uma possível retirada do país do mercado internacional pode acarretar em alta dos preços do grão, o que impactará a indústria nacional de proteína animal. Os efeitos também devem atingir em cheio a produção de grãos no Pará.

Segundo declarou o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, a legislação ambiental impede o país de explorar algumas das maiores reservas mundiais de fosfato, matéria-prima para a produção de fertilizantes, porque a ocorrência do rico mineral está localizada em terras indígenas na Amazônia.

No agronegócio brasileiro, a dependência de fertilizantes importados da Rússia é patente porque trata-se do maior fornecedor do insumo utilizado nas lavouras nacionais. O agricultor brasileiro tem como meta a busca do que tecnicamente chama-se Produtividade Máxima Econômica (PME). Além disso, o país europeu compra commodities e carnes do Brasil. Na visão somente de produtos agropecuários, a Rússia ficou na 22ª posição dentre os maiores importadores, com US $1,27 bilhão adquiridos em 2021 (participação de 1,06%), segundo dados contabilizados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

A Ucrânia, por sua vez, é líder na produção de milho. Sua possível retirada do mercado internacional diminuiria a oferta do cultivo, provocando uma alta no preço do grão, que é muito usado como ração, aumentando, assim, os custos de produção na pecuária e das carnes nas prateleiras do consumidor final no país e consequente perda de competitividades de preços no mercado internacional.

Ambos os países se destacam na produção de trigo, produto que já apresentava alta nesta quinta-feira (24) – dia da invasão russa na Ucrânia. O aumento superou 5% na bolsa de Chicago. A eventual menor oferta ocasionada pela guerra pode afetar a comercialização mundial do produto, incluindo o Brasil, que compra o cereal da Argentina, o qual pode ter um aumento da demanda.

Está a caminho uma crise de fertilizantes

Os fertilizantes químicos funcionam como um tipo de adubo, usados para preparar e estimular a terra para o plantio. Antes mesmo do conflito, o mundo já enfrentava uma crise no setor, com encarecimento dos preços e escassez no mercado. Os principais motivos eram problemas energéticos em países fornecedores da matéria-prima para esses produtos, como China, Rússia e Índia, e problemas logísticos por causa da falta de contêineres e navios.

Agora, isso pode se estender ou até mesmo piorar. Isso porque, no mercado mundial, a Rússia domina 10% dos nitrogenados, 7% dos fosfatados e 20% dos potássicos, os três tipos de fertilizantes mais usados nas lavouras brasileiras.

Efeito dominó

Apesar de a Ucrânia não ser grande fornecedora ou cliente do agronegócio brasileiro, uma crise afetaria o Brasil diretamente. Isso porque o país europeu é o terceiro maior produtor de milho mundial, aponta o Ministério da Agricultura. Caso o país diminua a produção, em um primeiro momento, com a menor oferta de milho, os preços subiriam ainda mais. Mesmo favorecendo o agricultor que trabalha com o cultivo, seria mais uma causa para subir o preço da ração, deste modo encarecendo as carnes nos supermercados, analisa o mercado.

Em paralelo, em países como os Estados Unidos, a soja concorre com o milho por espaço no campo. Com o maior preço, os agricultores focariam em produzir o milho, diminuindo também a oferta de soja, afetando, do mesmo modo que o milho, a pecuária numa espécie de “efeito dominó”.

Além do milho, ambos países se destacam no cultivo do trigo. A Rússia é o maior exportador de trigo do mundo e a Ucrânia, o quinto. Apesar de o Brasil completar o consumo interno com o cereal da Argentina, a menor oferta do produto causaria encarecimento mundial devido à maior demanda que os fornecedores disponíveis receberiam. Tudo isso afetaria também o consumidor, por causa de uma alta do preço dos alimentos no pão francês, item essencial no café da manhã nacional. Isso aconteceria em um cenário em que os estoques mundiais de grãos já estão apertados, relatam os especialistas. 

Para completar o cenário problemático, a Rússia é compradora importante de carnes brasileiras,  importando mais de US$ 167 milhões em 2021, ocupando o 12° lugar no ranking, segundo o Comex Stat. O país também é destino de commodities. Em relação à soja, por exemplo, a Rússia adquiriu o valor superior a US$ 300 milhões no ano passado, ocupando a 12° posição em importadora brasileira do produto, aponta o Comex Stat.

Por isso, se a relação comercial com a Rússia for abalada, o Brasil pode ter perdas econômicas, prevê estudo da Fundação Getúlio Vargas.

Produtos mais exportados do Brasil para a Rússia*

  • Soja, mesmo triturada, exceto para semeadura → US$ 343.286.654,00
  • Pedaços e miudezas, comestíveis de galos/galinhas, congelados → US$ 167.164.904,00
  • Café não torrado, não descafeinado, em grão → US$ 132.723.847,00
  • Amendoins descascados, mesmo triturados → US$ 129.731.662,00
  • Outros açúcares de cana →124.262.859,00

*Dados de 2021, em dólares
Fonte: Comex

Escassez de frango

O Brasil pode esperar também um aumento da demanda pela carne de frango – o que pode encarecer o produto. Isso porque a Ucrânia é um país exportador líquido do alimento, da ordem de 300 mil toneladas, diz relatório do Itaú BBA.

“Caso este fluxo seja interrompido,” explica, “o Brasil pode vir a capturar oportunidades de exportação na proteína avícola, por exemplo, na Arábia Saudita, onde cerca de 10% das importações de carne de frango vêm da Ucrânia”.

O consumidor vai pagar?

Para os especialistas, sim, o preço vai subir nas gôndolas dos supermercados. Contudo, analistas de mercado acreditam que isso levaria um tempo – isso porque o custo de produção ficaria maior na safra de verão 22/23, que seria repassado ao consumidor final.

Além do conflito entre a Ucrânia e a Rússia, as safras podem ser prejudicadas pelas questões climáticas, o que diminuiria ainda mais a oferta e subiria os preços no segundo semestre.

Plantio de soja em fazenda no município de Santana do Araguaia, extremo Sul do Pará

Impacto no Pará

A Aprosoja Pará ainda não emitiu comunicado sobre o impacto do conflito armado europeu no cultivo de grãos no Pará. Tampouco o fez a Federação da Agricultura do Estado (Faepa), mas sabe-se que além do alto custo do frete que já é pago, o custo dos fertilizantes será brutal na composição de preços da lavoura.

O conceito de uso eficiente de fertilizantes e corretivos na agricultura brasileira nos dias atuais passa, necessariamente, pela verticalização da produção e envolve uma avaliação criteriosa dos retornos econômicos sobre os investimentos, aponta o “Boletim Técnico n° 4 – Uso Eficiente de Fertilizantes e Corretivos Agrícolas – Aspectos Agronômicos”, publicado pela Anda (Associação Nacional para Difusão de Adubos), estudo disponível aqui.

“A tendência natural do agricultor em situações de dificuldade de crédito para custeio, desfavorável relação de troca entre custos de insumos e preços de venda dos produtos agrícolas, é como primeira medida, reduzir os gastos com esses insumos, notadamente com fertilizantes e corretivos agrícolas,” diz trecho da conclusão do boletim.

“A alternativa mais razoável em situações como a que ocorre hoje na agricultura brasileira é exatamente aquela que passa pela verticalização da produção, ou seja, aumentar a produtividade e reduzir os custos fixos, almejando sempre atingir a Produtividade Máxima Econômica (PME),” ensina.

Conclusão

O estudo da Anda conclui que: “A adoção desta filosofia de manejo, ou seja, fazer bem feito em uma área menor para aumentar a produtividade, aliada ao conhecimento e aplicação dos aspectos básicos que contribuem para o uso eficiente de fertilizantes e corretivos discutidos neste trabalho, é o caminho para aumentar a probabilidade de sucesso daqueles que militam no processo produtivo da agricultura brasileira”. Mas a que custo?

Por Val-André Mutran – de Brasília