Seminário desafia lógica do esquecimento da Memória Negra em Marabá

Debates no seminário reforçam a urgência do combate ao apagamento histórico e apontam caminhos para a preservação do patrimônio cultural afro-amazônico

​O eco de vozes que há séculos pede passagem reverberou na mente dos participantes do 1º Seminário de Memória e História Negra de Marabá, realizado dia 1°, no Teatro Municipal Eduardo Abdelnor. Este não foi apenas um encontro científico ou cultural, foi um passo para descolonização da memória social e para o enfrentamento ao apagamento histórico que forjou a sociedade marabaense.

​Entre a emoção, o resgate da ancestralidade e a seriedade dos compromissos firmados, o Seminário reuniu educadores, gestores públicos, militantes do movimento negro e estudantes em uma jornada reflexiva sobre o papel da população negra na formação socioeconômica do sudeste do Pará. A invisibilidade das populações negras nos espaços de poder e nos registros dos livros de história permeou boa parte do debate. Durante os painéis, palestrantes destacaram como o esquecimento da contribuição negra não é fruto de um acaso, mas de uma estratégia política.

​Foi destacado o papel histórico das políticas públicas de exclusão — desde a seletividade nos portos de imigração até o impedimento do acesso à educação primária para crianças negras sob justificativas discriminatórias. “O Estado não foi apenas omisso. O Estado atuou, fomentou e legalizou o racismo”, pontuou a socióloga Rose Bezerra, do Coletivo Consciência Negra em Movimento. A provocação deixada ao público e às autoridades presentes foi direta: se essa estrutura foi inventada, cabe à sociedade e ao poder público a fineza de desinventá-la.

Um debate importante do seminário ficou marcado pelo depoimento de Joelma Belém, mulher quilombola, titular da Diretoria Estadual de Igualdade Racial, da Secretaria de Igualdade Racial e Direitos Humanos do Pará. Ela é a primeira escritora quilombola do Estado do Pará reconhecida internacionalmente.

Com o microfone em mãos e a ancestralidade na voz, ela expressou a ambivalência e o peso que vem junto com os espaços que tem conquistado. ​”Por mais que eu entenda que alguém precisa ser a primeira para abrir portas para as outras, ainda é muito preocupante que, após 138 anos [da abolição da escravidão], eu seja a primeira mulher preta quilombola a ocupar essa cadeira de Estado, pensada por nós”, desabafou.

​Evocando a audácia e a astúcia das que vieram antes, Joelma Belém enfatizou a urgência de avançar em políticas de igualdade racial no estado. “O cenário é desafiador: dos 144 municípios do Pará, apenas 15 possuem políticas de igualdade racial formalizadas, apesar de o estado ter mais de 70% de sua população constituída por negros”, lamentou.  

​Compromissos e horizontes

​O seminário terminou não com respostas prontas, mas com um pacto coletivo de trabalho. O público conheceu o plano de reestruturação museológica da cidade, que propõe um novo olhar sobre a memória coletiva de Marabá. ​Gil Gomes, historiador do Museu Municipal Francisco Coelho, ressaltou que o museu não se enquadra como um espaço estático ou alienado das dinâmicas sociais. 

Entre as iniciativas anunciadas, destaca-se a construção colaborativa de um protocolo antirracista para garantir a segurança e o pertencimento, tanto de profissionais que atuam no museu quanto dos visitantes. Além disso, há a intenção de inaugurar uma exposição de longa duração, voltada a recontar a história marabaense a partir da perspectiva afro-indígena.

​A reflexão que se estabeleceu foi cristalina: praças, ruas, órgãos e monumentos públicos no Palacete Augusto Dias e por toda a cidade precisam refletir os desejos e anseios de uma população majoritariamente preta e indígena. 

Também foram pautadas a implementação do Letramento Racial no Estado, o fortalecimento das políticas de cotas e reserva de vagas, o financiamento contínuo de políticas de fomento à cultura negra e a inclusão das pautas quilombolas no orçamento público. 

Longe de ser apenas uma data no calendário, o 1º Seminário de Memória e História Negra de Marabá fincou um marco: o direito de contar a própria história não é uma concessão; é uma reparação histórica inegociável. Como sintetizado por uma máxima que foi recorrente durante a programação: “Nada sobre nós, sem nós”.

(Texto: Tay Marquioro/Assessoria de Imprensa)

Deixe seu comentário

Posts relacionados