“O Pará: Paisagem Transformação” leva 20 artistas visuais à Casa da Cultura de Canaã dos Carajás

Com curadoria de Henrique Montagne, a mostra rompe com a visão da Amazônia como simples cenário turístico, integrando fotografia, pintura, poesia e vídeo para discutir memória, disputa e resistência a partir da vivência de quem produz na região.

Rompendo com a visão estereotipada da Amazônia reduzida a um mero cartão-postal ou cenário turístico, a Casa da Cultura de Canaã dos Carajás inaugura nesta sexta-feira (23), às 19h, a exposição “O Pará: Paisagem Transformação”. Realizada logo após os debates globais da COP30, a mostra reúne cerca de 20 artistas visuais para debater a paisagem paraense não apenas como natureza, mas como corpo, memória, disputa, resistência e transformação.

Com curadoria de Henrique Montagne e assistência de Yasmin Gomes, a exposição propõe um mergulho nas relações entre ser humano e natureza, urbanidades, encantarias, exploração e pertencimento, conectando diferentes gerações da produção artística do estado. Para a diretora da Casa da Cultura, Gabriela Sobral, a iniciativa consolida o papel da instituição na valorização regional.

“Pensar a paisagem amazônica é também reconhecer as histórias e as disputas que constituem este território. (…) Ao reunir diferentes gerações de artistas paraenses, a Casa da Cultura reafirma seu compromisso com a valorização da produção artística da região e com a construção de espaços de reflexão sobre nossas identidades e os futuros que desejamos para a Amazônia”, destaca.

A proposta central, segundo o curador, é desdobrar a ideia tradicional de paisagem para além da mera contemplação, já que este conceito costuma ser colocado de forma estática. A curadoria da mostra começou a ser pensada ainda no início do ano, com o intuito de apresentar a paisagem como natureza, mas também como urbanidade, permitindo que as pessoas se reconheçam inseridas nela. 

Percorrendo a arte paraense desde os anos 1980 até a atualidade, o curador destaca que o projeto conecta trabalhos em fotografia, desenho, vídeo, pintura e poesia para refletir sobre “relações de identidade, de ancestralidade, de memória, de pequenas lutas e revoluções dentro dessa terra”. “É muito importante, porque, através desse olhar dos artistas, a gente consegue refletir sobre novos olhares e experiências em torno dessa temática no estado do Pará”, explica.

Henrique pontua ainda que a exposição coloca a paisagem e a transformação como termos indissociáveis, desafiando o público a pensar nos impactos que atingem o território hoje e nos caminhos para o amanhã. Ao reunir produções que vão dos registros históricos em nanquim aos vídeos e performances contemporâneas, o curador reforça que a mostra aborda tanto as transformações sensíveis da pele e dos sentidos quanto a degradação e as formas de resistência, questionando “o que a gente vai deixar de paisagem no futuro”.

Múltiplas linguagens: da fotografia à poesia

A mostra articula diferentes suportes: fotografia, vídeo, desenho, pintura e poesia. A intenção é estabelecer diálogos plurais sobre o território. Na fotografia, o artista Alberto Bitar (registrado na mostra) apresenta uma reflexão profunda sobre o tempo e a lembrança:

“Basicamente a fotografia na mostra trata de memória. (…) O uso da baixa velocidade do obturador que imprime nas fotografias algum deslocamento e o uso de filtros físicos para alterar os tons na imagem [buscam] distanciar esses resultados do que temos como realidade e remeter a um outro tempo para falar das viagens que fazia com a família quando era criança”, explica Alberto.

Na pintura, a artista Emily Guimarães revisita registros afetivos da juventude para tensionar as transformações geográficas e atmosféricas do estado. “Minha produção parte da observação de paisagens com as quais estabeleço uma relação de memória e afeto. Muitas das imagens que utilizo como referência são registros fotográficos que fiz durante a adolescência, em viagens pelo interior do Pará, e que retomo hoje por meio da pintura”, conta. 

Para Emily, é interessante observar como esses lugares se modificam ao longo do tempo e como essas mudanças alteram também a sua relação com eles. “A cor e a matéria pictórica são fundamentais nesse processo, pois não busco reproduzir fielmente uma paisagem, mas reconstruir as sensações que ela me provoca. Utilizo muitos tons de azul, que me permitem explorar as variações do céu, da luz e da atmosfera desses lugares”, aponta Emily.

Incorporando a força da palavra ao lado das obras visuais, a poesia ganha voz com Roberta Tavares, que conecta a criação literária às raízes amazônicas. “Não acho que a poesia seja uma tradução estrita de alguma coisa, simplesmente porque ela não cabe na concepção pragmática e utilitarista que o capitalismo tanto gosta, por isso mesmo ela subverte a lógica do capital”, diz. 

Para a expositora, a poesia subverte a lógica do capital, porque possibilita a criação de outras imagens, multiplica símbolos ao mesmo tempo que é uma janela para olhar o mundo. Sobre os símbolos que carrega consigo, como o Pará e a Amazônia, ela garante sua transposição para as palavras que escreve.

“Esses símbolos e referências o tempo todo são acionados pelas pessoas que também os carregam, e sempre foram carregados por outros literatos e artistas antes de mim, como Dalcídio, como Bruno de Menezes, Tó Texeira, e outros e outras o farão também depois de mim… olhando para trás e voando para frente, o Pará é nossa principal janela para o mundo”, finaliza Roberta.

Confira os trabalhos selecionados para a exposição

Hagaruke – Miguel Chikaoka | Fotografia

Sem Título – Alberto Bitar, da série ‘Efêmera Paisagem’ | Fotografia

Um crepúsculo do Rio Guamá – Pablo Muffarej | Pintura

Fragmento de poema, livro “Mulheres de Fogo”- Roberta Tavares | Poema

Sem título I – Pedro Morbach | Desenho

Sem título II – Pedro Morbach | Desenho

Dona Branca – Alexandre Sequeira, da série ‘Nazaré do Mocajuba’ | Fotografia

Dona Benedita – Alexandre Sequeira, da série ‘Nazaré do Mocajuba’ | Fotografia

Dona Francisca – Alexandre Sequeira, da série ‘Nazaré do Mocajuba’ | Fotografia

Dona Branca – Alexandre Sequeira, da série ‘Nazaré do Mocajuba’ | Fotografia

Invisíveis Prazeres Cotidianos – Jorane Castro | Vídeo

O brega cura onde dói – Naré | Vídeo

Manifesto pela Obviedade – Gabriela Sobral | Poema

Antes que eu vá – Emily Guimarães, da série ‘Ainda te espero por essas estradas’ |

Pintura

O caruana de minha avó – Roberta Tavares | Poema

Caruana – Afonso Camargo Fona | Desenho

O Curupira – Afonso Camargo Fona | Desenho

Paxiúba – Henrique Montagne, da série ‘Encantamentos’ | Fotografia

Sem Título I, II, III, IV, V, VI – Luísa Cativo, da série ‘Planeta Amazônia’ | Fotografia

Mata Lago Bolonha – Orlando Maneschy | Vídeo

Sem título (Byxa Cabana) – Roma Rio | Performance para Fotografia

Telhados da Sé – Gabriela Sobral | Poema

Tonha – Val Sampaio | Fotografia

Capetão – Val Sampaio, da série ‘EU’ | Vídeo

Sem título I, II e III – Éder Oliveira | Fotografia

Sem título I – Rodrigo José, da série “Amazônia” | Fotografia

Sem título II – Rodrigo José, da série “Amazônia” | Fotografia

O senhor é meu pastor e nada me faltará – Victor de La Rocque | Vídeo

Noite Florada, Jardim de Memórias – Celeste Mendes | Colagem

Sem título I – Luciana Magno, da série “Orgânicos” | Fotografia

Sem título II – Luciana Magno, da série “Orgânicos” | Fotografia

Poema para não morrer – Roberta Tavares | Poema

Jurema (Uma proposta para bandeira do Brasil) – Luciana Magno | Objeto

SERVIÇO

  • O quê: Abertura da exposição “O Pará: Paisagem Transformação”
  • Abertura: 23/10/2026, às 19h
  • Visitação: A partir de 24/10/2026, das 8h às 19h (exceto domingos e feriados)
  • Local: Casa da Cultura de Canaã dos Carajás (Rua das Esmeraldas, 143 – Nova Canaã II)
  • Público: Livre | Entrada: Gratuita
  • Informações: (94) 99220-3451

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