Entrevista de Simão Jatene ao Diário do Pará

Depois de uma semana cansativa de negociações com os partidos para escolha e anúncio da equipe de governo, Simão Jatene revela que sentiu muitas dificuldades para escolher alguns nomes e …

JateneDepois de uma semana cansativa de negociações com os partidos para escolha e anúncio da equipe de governo, Simão Jatene revela que sentiu muitas dificuldades para escolher alguns nomes e que não sabe ainda os números gerais do Estado porque a transição de governo não funcionou. Diz também que vai trabalhar para manter a presidência da Assembleia Legislativa com o PSDB.

A seguir, a entrevista concedida aos repórteres Aline Brelaz e Carlos Mendes:

P: Como o senhor define o perfil da sua equipe de governo?
R: Acho que procura representar bem o momento que a sociedade paraense está vivendo, no sentido de que tem representação, de fato, técnica, mas também representatividade política. Procuramos trabalhar, sobretudo, a ideia de compromisso com o Estado do Pará, capacidade de atuar em equipe. Os desafios são de tal natureza que é fundamental espírito de equipe e que cada órgão não pretenda ser um governo isolado, um governo em si mesmo.

P: Entre tantos desafios, três deles são saúde, segurança pública e educação, que têm sido os maiores setores de crítica ao governo petista. O senhor já escolheu os secretários. Quando o senhor pretende anunciar as ações na área de segurança pública?
R: Não foi por acaso que os três primeiros secretários convidados e anunciados foram dessas áreas. Eu entendo que estes segmentos terminam se constituindo nas atividades que mais impactam a vida cotidiana das pessoas. O desafio não é simples e não é apenas para secretarias e para o governo. Estou convencido que é fundamental que a sociedade se mobilize em torno dessas três questões. Sem o que será muito difícil. É claro que o governo tem que funcionar como o grande orientador, balizador das ações públicas nesta direção. Na área da segurança pública, vamos trabalhar dois grandes focos, o braço armado da repressão e políticas públicas que ajudem, sobretudo, a prevenção. Não é fácil, mas se estivermos juntos e o governo conseguir mobilizar e motivar a sociedade, vamos conseguir.

P: Voltando à questão da equipe de governo. O senhor já disse que é plural e pelo que se caminha o senhor terá apenas duas bancadas de oposição na Assembleia Legislativa, PT e Psol. O restante será da base aliada, como na administração tucana anterior. A estratégia é trabalhar com o mínimo de oposição?
R: Não é questão de mínimo de oposição. É uma questão clara de propor e exercitar o que eu chamo de um grande pacto pelo Pará. Estou convencido que para dar um salto nas três áreas que falamos anteriormente, não é reduzir índices; é fundamental que se repense, que se mude a forma da relação do governo federal com Amazônia e o Estado do Pará. A Amazônia e o Pará têm sido vistos de maneira equivocada pelo governo federal. A Amazônia representa quase 60% do País, com cerca de 12% da população do país, onde geram apenas 8% de todo o PIB do Brasil. Isso é grave e ainda se agrega o fato de que a Amazônia, para gerar esses 8% , acaba gerando metade das emissões dos gases que provocam o efeito estufa. Temos que mudar esse modelo.

P: Como fazer isso?
R: Primeiro, nos unirmos internamente. Por isso discuto essa questão do pacto. Temos diferenças e não tenho medo delas. Tenho medo de desigualdades. O grande desafio do Pará é pobreza e desigualdade. Temos grande maioria das famílias vivendo em condições muito precárias.

P: Mas dentro deste cenário de configuração política do governo, o PMDB também briga pela presidência da AL. O senhor pretende manter nas mãos do PSDB ou tem condições de ser de um partido aliado?
R: Primeiro, acho que em qualquer circunstância, normalmente os políticos dizem uma coisa meio hipócrita de que cabe somente ao Legislativo essa discussão. Não existe isso. Eu tenho dificuldade de tratar as questões dessa forma. Interessa muito ao Executivo ter uma relação amistosa, parceira efetivamente com os outros poderes e em especial com a Assembleia. Vamos tentar construir isso, sim. Nada impositivo, mas a negociação para que fique com o PSDB, eu acho que é legítima, correta, mas entendo que cada partido almeje o que julgar conveniente.

P: Voltando à saúde pública, nossos índices são dramáticos e Belém é o depositório de todas as mazelas da saúde estadual. Qual a estratégia para a área?
R: Bem definida. Quando partimos para construção dos cinco hospitais regionais, muitos acharam loucura, mas tínhamos a estratégia de permitir que a média e alta complexidade de tratamento pudessem chegar mais próximo das pessoas. A distribuição dos hospitais contemplou todas as regiões. Mas, também outro elemento que era a necessidade de construir efetivamente no Estado uma rede atendimento no serviço público de saúde. Agora vamos construir, consolidar esta rede. A atenção básica à saúde é fundamental, mas precisamos ter uma retaguarda e para isso vamos atuar em parceria com os hospitais municipais. Um razoável número de municípios tem hospitais, mas não equipamentos de forma suficiente e não têm quadro de pessoal para atender a demanda. A ideia é requalificar esses hospitais, melhorando o atendimento em cooperação, ofertando médicos e enfermeiros à população. No governo anterior construímos o Hospital Regional do Baixo Amazonas e implantamos também a faculdade de medicina. Agora vamos implantar na região sul do Pará, apostando na formação de profissionais na área. O caso do hospital de Breves, vamos botar para funcionar claramente.

P: O senhor já disse que colocou em sua equipe pessoas estratégicas em locais estratégicos, como a Sema, onde a Teresa Cativo tem a missão de dar rumo à política ambiental do Estado. O que está sendo preparado para a área?
R: Não se pode ser policialesco na Sema. Mas, sem dúvida alguma tem que repor a questão da moralidade no trato dessa questão que é estratégica. É por isso que a escolha para lá foi uma pessoa franca e marcadamente uma boa gestora. É fundamental que se destrave algumas coisas nessa área, mas dentro de princípios éticos. Recuperar a credibilidade do órgão. Se hoje perguntar ao setor florestal qual é o quadro que eles sentem, vão dizer que estão no pior dos mundos. Se perguntar ao setor pecuário, a mesma coisa, o setor produtivo como um todo. Os ambientalistas vão falar no pior dos mundos. Muitos alegam que o desmatamento caiu. É verdade isso, mas as pessoas não têm se dado conta que o desmatamento caiu nos últimos anos, mas o que se chama de degradação das áreas aumentou. Vamos ser francos, a atividade madeireira florestal não é necessariamente a ser condenada por princípio. O manejo é possível. Deve-se conter economia florestal forte, mas dentro de padrões técnicos, fundada no manejo.

P: O senhor continua com dificuldade para escolher o comando do Corpo de Bombeiros, já que o coronel escolhido responde a processo por peculato e estelionato. Corre o risco do senhor chamar algum militar da reserva?
R: Não. Não corre. Pretendo fazer essa escolha até a próxima semana.

P: Fala-se que há uma fila na Seduc de credores que não conseguem receber. Alguns desde agosto na fila. O senhor está preparado para receber o governo, não como herança maldita, mas com esse quadro? Já deu para ter uma ideia de como estão os números do Estado?
R: Temos uma ideia, mas efetivamente o real quadro só vamos ter após assumir. O resultado da eleição reflete a condição em que o Estado está posto. Não tenho dúvida que vamos viver momentos de muita dificuldade.

P: O senhor vai manter o esquema de agenda mínima, como na gestão anterior?
R: Sim, mas só depois de ter acesso aos números do Estado. Ainda não foi possível traçar nenhum diagnóstico da real situação do Estado.

P: Este é o primeiro desafio?
R: Não, o primeiro é fazer com que as coisas voltem a funcionar. E esse não tem jeito. Aqueles que são credores do Estado, que têm documentos que comprovam isso, vamos criar critérios de atendimento.

P: O que o senhor pretende fazer em Brasília para sensibilizar a presidente Dilma em relação à Lei Kandir?
R: Nos meus quatro anos de mandato, consegui fazer um razoável movimento junto com outros governadores, mas o tema saiu da pauta nos últimos quatro anos. Não me recordo de ninguém discutir a Lei Kandir ultimamente. Oito anos depois tivemos que voltar a Brasília para discutir porque descobrimos que o orçamento da República não contemplava os Estados exportadores com qualquer compensação pelas perdas da Lei Kandir. Com apoio da bancada federal, conseguimos com outros governos criar um piso de R$ 3.9 bilhões, o mesmo número de oito anos atrás. O País que quer fazer das exportações um dos pilares do seu crescimento não pode ter uma política que desincentiva a exportação dos Estados.

P: O senhor saiu com índices de aprovação beirando 80%, mas hoje a realidade é diferente. Como será seu relacionamento com Brasília?
R: Nunca assumi qualquer postura de oposição por oposição. O que dificultou o relacionamento foi justamente a questão fiscal. Quero manter com o governo federal uma relação parceira, mas não posso aceitar que o Pará, sendo um dos cinco Estados que mais contribui com a balança comercial, continue sendo penalizado pelo governo federal. É inadmissível essa história de Estado rico e povo pobre.

P: O que o senhor diria para o povo do Pará neste início de mandato e de ano?
R: Que sou eternamente grato pela confiança a mim depositada e peço a Deus que me ilumine e me dê sabedoria para eu fazer um governo que expresso desejo das mãos, vozes e corações que me ajudaram nesta eleição. É tudo que eu peço.

Fonte:Diário do Pará

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