Canaã dos Carajás: da luta pela emancipação à força de uma potência econômica nacional

A história de um município que transformou R$ 300 mil em mais de meio bilhão de ICMS

Da luta pela emancipação política às dificuldades dos primeiros governos, Canaã dos Carajás construiu uma trajetória de transformação administrativa, crescimento da arrecadação e expansão econômica. Uma história marcada pela participação popular, pelo trabalho de sucessivas administrações municipais, pela riqueza mineral e por decisões técnicas que ajudaram a redefinir o futuro do município.

A origem de Canaã Dos Carajás: o sonho da emancipação

A história de Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará, representa um dos mais expressivos processos de transformação econômica e administrativa da Amazônia brasileira.

O município, que hoje movimenta centenas de milhões de reais em receitas públicas e ocupa posição de destaque no cenário mineral brasileiro, nasceu de uma pequena comunidade de colonos, conhecida como Cedere II, formada no contexto dos projetos de colonização e assentamento rural desenvolvidos pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e pelo antigo Grupo Executivo das Terras do Araguaia-Tocantins (Getat).

Naqueles tempos, poucos poderiam imaginar que aquela vila, marcada por estradas precárias, edificações de madeira, dificuldades de comunicação e reduzida atividade econômica, se transformaria em um dos municípios economicamente mais relevantes do Brasil.

Mas essa transformação não aconteceu por acaso. Antes da riqueza mineral e da expansão da arrecadação, houve uma luta política, institucional e popular pela emancipação.

E essa história precisa ser contada, preservada e reconhecida.

O Projeto de Lei nº 135/1991 e o papel do deputado Joércio Barbalho

O primeiro grande marco institucional da emancipação ocorreu em 2 de setembro de 1991, com a apresentação do Projeto de Lei nº 135/1991, de autoria do então deputado estadual Joércio Fontenele Barbalho, na Assembleia Legislativa do Estado do Pará (Alepa).

A iniciativa representou o início formal da tramitação legislativa destinada à criação do município de Canaã dos Carajás, mediante seu desmembramento de Parauapebas.

Na Comissão de Constituição e Justiça da Alepa, o projeto teve como relator o deputado estadual José Francisco, responsável pela análise de sua constitucionalidade e legalidade. Após os procedimentos legislativos, a proposta recebeu parecer favorável e foi aprovada pela Assembleia Legislativa em 23 de agosto de 1994.

Em 20 de setembro daquele ano, o então presidente da Alepa, deputado Bira Barbosa, encaminhou o projeto aprovado ao governador do Pará, Carlos José Oliveira Santos, para sanção.

A atuação do deputado Joércio Fontenele Barbalho integra, portanto, a memória institucional da criação de Canaã dos Carajás, por sua condição de autor da proposição legislativa que deu origem ao município.

O plebiscito de 21 de abril de 1994: a população decide seu destino

Antes da aprovação definitiva do projeto, uma etapa fundamental precisava ser cumprida: a consulta popular.

Por meio do Decreto Legislativo nº 56, de 1º de dezembro de 1993, a Alepa autorizou a realização do plebiscito na localidade de Canaã. A medida observava o artigo 7º da Lei Complementar Estadual nº 001, de 18 de janeiro de 1990, que estabelecia a consulta prévia à população como requisito para a criação de novos municípios.

O decreto foi assinado pelos integrantes da Mesa Diretora da Assembleia: o deputado Bira Barbosa, presidente; o deputado Gervásio Bandeira, primeiro-secretário; e a deputada Eunice Gouveia, segunda-secretária.

Posteriormente, por meio do Ofício nº 8.374/1993, de 29 de dezembro de 1993, Bira Barbosa solicitou à então presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA), desembargadora Climenice Bernadete de Araújo Pontes, as providências necessárias à realização da consulta popular.

E chegou o dia histórico.

Em 21 de abril de 1994, os moradores da então vila Cedere II compareceram às urnas para decidir o futuro político e administrativo da comunidade.

Foi uma mobilização popular memorável.

Homens e mulheres se deslocaram utilizando automóveis, motocicletas, bicicletas, cavalos e os meios de transporte disponíveis na época. O sentimento predominante era o desejo de autonomia administrativa e de construção de um futuro próprio.

Naquele contexto jurídico, a consulta foi realizada entre os eleitores habilitados da área diretamente interessada, de acordo com as regras então aplicadas. Conforme os registros históricos locais que fundamentam este relato, a votação registrou unanimidade dos votos válidos favoráveis à emancipação.

O plebiscito consolidou a vontade popular de transformar a antiga vila em município independente.

5 de outubro de 1994: nasce oficialmente Canaã dos Carajás

A luta pela emancipação alcançou seu objetivo em 5 de outubro de 1994, quando o governador Carlos Santos sancionou a Lei Estadual nº 5.860, criando oficialmente o município de Canaã dos Carajás, desmembrado de Parauapebas.

A denominação Canaã dos Carajás já havia sido escolhida em consulta popular realizada entre moradores, com a participação da Comissão de Emancipação. O nome carregava o simbolismo de uma terra de esperança, trabalho e oportunidades.

Entretanto, a criação legal não significou a instalação imediata da administração municipal. Foi necessário aguardar a realização das primeiras eleições municipais, ocorridas em 3 de outubro de 1996. Somente em 1º de janeiro de 1997, com a posse do prefeito, dos vereadores e a instalação das instituições municipais, Canaã dos Carajás passou a exercer efetivamente sua autonomia político-administrativa.

A solenidade de instalação foi presidida pelo juiz da Comarca de Curionópolis, observando o artigo 9º da Lei Complementar Estadual nº 001/1990.

Estava oficialmente instalado um novo município paraense.

Mas a verdadeira batalha administrativa estava apenas começando.

As dificuldades dos primeiros anos: um município que precisou aprender a caminhar com as próprias pernas

Existe uma ideia equivocada de que, ao ser criado um município, o governo estadual disponibiliza automaticamente toda a estrutura física, administrativa e financeira necessária ao funcionamento da nova prefeitura.

A realidade de Canaã dos Carajás foi muito diferente.

A nova administração precisou organizar praticamente tudo: prefeitura, câmara municipal, secretarias, serviços públicos, arrecadação tributária, quadro de servidores e atendimento à população. 

Diversos imóveis de madeira, anteriormente utilizados pelo Getat, foram aproveitados para abrigar órgãos municipais. Entre essas estruturas estavam instalações utilizadas pela prefeitura, pela câmara municipal e pelo atendimento hospitalar.

A precariedade física era acompanhada de enormes limitações financeiras.

A economia local era predominantemente rural, com reduzida base de arrecadação própria. O funcionamento da máquina administrativa dependia essencialmente das transferências constitucionais da União e do Estado.

E um dado ajuda a compreender a dimensão dessas dificuldades: em 1997, primeiro ano de funcionamento do município, a cota-parte anual do ICMS foi estimada em apenas R$ 300 mil.

Isso correspondia a uma média de aproximadamente R$ 25 mil mensais.

Era com receitas extremamente limitadas que a administração precisava enfrentar demandas de saúde, educação, infraestrutura, transporte, saneamento e organização institucional.

O município havia conquistado a emancipação política, mas ainda precisava construir sua autonomia administrativa e financeira.

Cimar Gomes: o primeiro prefeito e a turbulência política dos anos iniciais

O primeiro prefeito eleito de Canaã foi Cimar Gomes da Silva (PSDB), que assumiu a prefeitura em 1º de janeiro de 1997, com apenas 31 anos.

Sua eleição, entretanto, foi marcada por uma tragédia.

O candidato a vice-prefeito de sua chapa, Daniel Gonçalves, havia sido baleado durante a campanha eleitoral, em Parauapebas, e morreu às vésperas da votação.

Assim, Cimar iniciou sua administração sem a presença do vice-prefeito eleito, situação excepcional que trouxe dificuldades adicionais à estrutura política do novo município. Na ausência do vice, a linha de substituição do Executivo municipal passava pela presidência da Câmara Municipal.

A primeira gestão foi marcada por intensos conflitos entre o Executivo e o Legislativo. As divergências políticas culminaram no afastamento do prefeito por decisão da Câmara Municipal, episódio que marcou profundamente os primeiros anos da história política de Canaã dos Carajás.

Era um período em que as instituições municipais ainda estavam em formação, a arrecadação era reduzida e as disputas políticas se desenvolviam em um ambiente de grande instabilidade. Apesar dessas dificuldades, aquele primeiro mandato representou uma etapa fundamental da construção institucional do município.

Anuar Alves: a organização administrativa e os primeiros sinais de crescimento

Nas eleições municipais de 2000, foi eleito prefeito Anuar Alves da Silva (PDT), tendo como vice-prefeito Altamiro Mendes dos Santos (PSB).

Anuar assumiu a administração em 1º de janeiro de 2001, em um momento em que Canaã dos Carajás começava a experimentar transformações importantes em sua economia. Sua gestão buscou estabelecer uma relação institucional mais estável entre o Executivo e a Câmara Municipal, embora permanecessem divergências políticas, especialmente com o vereador Zito Augusto.

O município também começava a vivenciar os efeitos da implantação do Projeto Sossego, empreendimento mineral da então Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), por meio da Mineração Serra do Sossego. A implantação do projeto, com investimentos anunciados da ordem de US$ 500 milhões, movimentou a economia local, atraiu trabalhadores de diferentes regiões do Brasil e ampliou a demanda por serviços públicos.

Paralelamente, avançavam obras importantes, entre elas a pavimentação da rodovia PA-160, ligação estratégica entre Canaã dos Carajás e Parauapebas.

Nesse período, a arrecadação municipal começou a crescer.

A cota-parte anual do ICMS, que havia sido estimada em R$ 300 mil em 1997, já alcançava valores próximos de R$ 1 milhão em determinados anos do início da década de 2000.

O município começava a deixar para trás a condição de pequena comunidade rural e a ingressar em uma nova etapa econômica.

Ribita: a valorização da equipe técnica e a virada na arrecadação do ICMS

Um dos capítulos de maior relevância para a história administrativa e financeira de Canaã dos Carajás ocorreu durante o mandato do prefeito Jeseilton do Nascimento Oliveira, conhecido como Ribita (PT), eleito em 2004, aos 34 anos.

Ribita assumiu a prefeitura em 1º de janeiro de 2005, tendo como vice-prefeito Mizael Geraldo de Carvalho (PMN). Sua administração se caracterizou pela composição de uma equipe que reunia quadros políticos e profissionais especializados em diferentes áreas da gestão pública.

O prefeito procurou incorporar ao governo pessoas com experiência administrativa, conhecimento técnico e capacidade de atuação em setores estratégicos, especialmente nas áreas financeira, tributária e jurídica. Entre os integrantes dessa equipe estava Vando Vidal, profissional com experiência em finanças públicas e tributação municipal.

Foi justamente nesse campo que ocorreu uma das iniciativas mais relevantes da administração.

A revisão dos índices do ICMS e a atuação de Vando Vidal

Por determinação do prefeito Ribita, Vando Vidal e sua equipe iniciaram um estudo detalhado sobre os critérios utilizados pela Secretaria de Estado da Fazenda do Pará (Sefa) para calcular a participação de Canaã dos Carajás na distribuição da cota-parte municipal do ICMS.

O trabalho identificou inconsistências nos cálculos e critérios que influenciavam o índice de participação do município.

A questão ganhou especial importância em julho de 2005, quando o governo estadual divulgou os índices provisórios de distribuição do ICMS que seriam aplicados no exercício de 2006.

A equipe técnica municipal passou a questionar os valores atribuídos a Canaã. O assunto foi encaminhado à Procuradoria-Geral do Município, então comandada pela procuradora-geral Dra. Marilda Natal.

A partir daí, iniciou-se uma atuação conjunta entre os setores técnico, financeiro e jurídico da administração municipal. A Procuradoria contestou o índice divulgado pelo Estado e obteve resultado favorável à posição defendida pelo município.

O episódio representou um marco importante na defesa das receitas municipais.

Não se tratava simplesmente de buscar novos recursos, mas de assegurar que Canaã dos Carajás recebesse a participação tributária que lhe cabia segundo os critérios legais.

Os resultados financeiros da gestão Ribita

A evolução da arrecadação demonstra a dimensão da mudança ocorrida naquele período.

AnoArrecadação anual de ICMS
2006R$ 4.765.682
2007R$ 11.691.128
2008R$ 15.312.230

Entre 2006 e 2008, a receita anual de ICMS cresceu aproximadamente 221%, passando de R$ 4,76 milhões para R$ 15,31 milhões.

Em apenas dois anos, a arrecadação mais que triplicou.

É importante reconhecer que o crescimento econômico e a expansão da atividade mineral também contribuíram para esse resultado. Entretanto, a atuação da equipe técnica e jurídica municipal constituiu uma iniciativa administrativa concreta de defesa da receita pública.

O trabalho desenvolvido sob a orientação do prefeito Ribita, com participação de Vando Vidal, da Dra. Marilda Natal e dos demais integrantes das equipes envolvidas, merece registro na história das finanças públicas de Canaã dos Carajás.

A experiência demonstra a importância de uma administração que valoriza conhecimento especializado, planejamento, acompanhamento tributário e atuação jurídica qualificada.

Um registro pessoal sobre a administração Ribita

Faço aqui um registro pessoal, na condição de jornalista e de alguém que participou diretamente de diferentes momentos da história administrativa de Canaã dos Carajás.

Embora eu não tivesse apoiado a candidatura de Ribita nas eleições de 2004, fui convidado por ele para integrar sua administração.

O prefeito sabia que eu não havia votado nele. Ainda assim, decidiu me convidar para participar do governo, levando em consideração minha experiência profissional na área da comunicação.

Foi dessa forma que passei a integrar sua equipe de comunicação, dando continuidade à minha trajetória como pioneiro da assessoria de imprensa na administração municipal.

Aquele convite demonstrou uma disposição de incorporar profissionais ao governo independentemente das divergências eleitorais anteriores.

Durante a gestão, acompanhei o trabalho de uma equipe que reunia profissionais de diferentes formações e experiências, em um momento de profundas mudanças na estrutura administrativa e financeira de Canaã dos Carajás.

Esse testemunho integra minha memória pessoal e profissional sobre uma fase importante da história do município.

O retorno de Anuar Alves e a continuidade do crescimento

Nas eleições de 2008, Anuar Alves da Silva (PDT) voltou a ser eleito prefeito, desta vez tendo como vice o médico Dr. Itamar Francisco da Silva (PTB).

Seu segundo mandato teve início em 1º de janeiro de 2009.

Naquele momento, Canaã já apresentava uma estrutura econômica e administrativa muito diferente daquela encontrada no início da década. O Projeto Sossego estava em operação, a atividade mineral impulsionava a economia e a arrecadação municipal continuava em expansão.

Em 2009, primeiro ano do segundo mandato de Anuar, a cota-parte do ICMS alcançou R$ 19.325.958. No último ano da administração, em 2012, o valor chegou a R$ 26.497.860.

O crescimento entre esses dois exercícios foi de aproximadamente 37%.

A administração de Anuar, portanto, acompanhou uma nova etapa de expansão das receitas municipais, em um cenário de consolidação da atividade mineral e de ampliação das demandas por infraestrutura e serviços públicos.

Jeová Andrade: dois mandatos e a expansão da receita municipal

Nas eleições de 2012, foi eleito prefeito Jeová Gonçalves de Andrade (PMDB), tendo como vice-prefeito Alexandre Pereira dos Santos (PT).

Jeová assumiu em 1º de janeiro de 2013.

O município já experimentava os efeitos de uma economia cada vez mais vinculada à mineração, aos serviços e à ampliação de sua estrutura urbana.

Em 2013, primeiro ano de seu governo, a arrecadação de ICMS atingiu R$ 39.769.485. No encerramento do mandato, em 2016, a receita havia alcançado R$ 51.216.493.

Jeová foi reeleito nas eleições de 2016, tornando-se o primeiro prefeito de Canaã dos Carajás a conquistar um segundo mandato consecutivo, tendo novamente como vice-prefeito Alexandre Pereira dos Santos.

Em 2017, primeiro ano de sua nova administração, a arrecadação registrou uma redução, chegando a R$ 42.663.161. Essa queda precisa ser analisada à luz dos índices de participação municipal, das regras de distribuição e das condições econômicas daquele exercício.

Entretanto, nos anos seguintes, a receita voltou a crescer.

Em 2020, último ano do segundo mandato de Jeová Andrade, a cota-parte do ICMS atingiu a expressiva marca de R$ 131.836.987. 

O município ultrapassava, pela primeira vez entre os valores aqui apresentados, a barreira dos R$ 100 milhões anuais de ICMS.

Era uma transformação extraordinária em comparação com a realidade de 1997.

Josemira Gadelha: a primeira mulher à frente da prefeitura e a era do meio bilhão

As eleições municipais de 2020 abriram um novo capítulo na história política de Canaã dos Carajás. Josemira Raimunda Diniz Gadelha (MDB) foi eleita prefeita, tornando-se a primeira mulher a assumir o comando do Poder Executivo municipal, tendo como vice-prefeito Zito Augusto Corrêa (PDT).

Sua administração teve início em 1º de janeiro de 2021.

Naquele momento, Canaã já ocupava posição de grande importância na economia mineral brasileira, impulsionada especialmente pela produção de cobre e minério de ferro.

A expansão das atividades de mineração, o crescimento do setor de serviços, a movimentação econômica e a evolução dos índices de participação tributária contribuíram para elevar a arrecadação municipal.

E os números impressionam.

Em 2021, primeiro ano da administração Josemira Gadelha, a arrecadação da cota-parte do ICMS alcançou R$ 222.241.420. O valor representava um crescimento de aproximadamente 68,6% em relação a 2020.

Mas o salto mais expressivo ainda estava por acontecer.

2024: Canaã Dos Carajás supera meio bilhão de reais em ICMS

Em 2024, último ano do primeiro mandato de Josemira Gadelha, a arrecadação anual de ICMS atingiu a extraordinária cifra de R$ 522.672.141,00 — mais de meio bilhão de reais.

O dado representa um marco histórico para as finanças públicas municipais.

A pequena vila de colonos que, em 1997, havia recebido aproximadamente R$ 300 mil em ICMS alcançava, 27 anos depois, uma receita anual superior a R$ 522 milhões. Em termos nominais, a arrecadação havia se multiplicado por aproximadamente 1.742 vezes.

Trata-se de uma comparação entre valores correntes, sem correção monetária, mas que revela a dimensão da expansão da receita pública.

A trajetória demonstra a profunda transformação da base econômica do município e sua crescente participação na distribuição da receita estadual.

Nas eleições municipais de 2024, Josemira Gadelha foi reeleita para um segundo mandato consecutivo, tendo como vice-prefeito Dinilson José dos Santos (MDB).

2025: a redução da receita de ICMS

Em 2025, primeiro ano do segundo mandato de Josemira, Canaã dos Carajás registrou uma redução na arrecadação da cota-parte do ICMS.

O valor anual ficou em R$ 433.174.415. Em comparação com 2024, a diminuição foi de aproximadamente R$ 89,5 milhões, equivalente a 17,1%.

A queda ocorreu em um contexto de alterações nas regras e nos índices de distribuição do ICMS aos municípios paraenses. Para identificar precisamente quanto dessa redução decorreu de mudanças legislativas, da composição dos índices ou do desempenho da arrecadação estadual, é necessário examinar os atos normativos e os demonstrativos oficiais correspondentes.

Ainda assim, a receita de 2025 permaneceu em um patamar extraordinariamente superior ao observado nas primeiras décadas de existência do município.

2026: mais de R$ 228 milhões no primeiro semestre

No primeiro semestre de 2026, conforme os valores utilizados neste levantamento histórico, Canaã recebeu R$ 228.540.441 em repasses da cota-parte do ICMS.

Se o mesmo ritmo nominal fosse mantido no segundo semestre, a arrecadação anual projetada alcançaria aproximadamente R$ 457,1 milhões. Essa projeção é apenas uma estimativa matemática, e não uma previsão oficial de receita.

Mesmo diante das oscilações dos índices de participação e das regras tributárias, Canaã dos Carajás permanece com uma receita de ICMS de grande relevância para o conjunto dos municípios paraenses.

A evolução histórica do ICMS: de R$ 300 mil a mais de R$ 522 milhões

Os números reunidos neste levantamento permitem visualizar a transformação das finanças municipais ao longo de quase três décadas.

AnoGestão municipalCota-parte do ICMS
1997Cimar GomesR$ 300 mil*
2006RibitaR$ 4.765.682
2007RibitaR$ 11.691.128
2008RibitaR$ 15.312.230
2009Anuar AlvesR$ 19.325.958
2012Anuar AlvesR$ 26.497.860
2013Jeová AndradeR$ 39.769.485
2016Jeová AndradeR$ 51.216.493
2017Jeová AndradeR$ 42.663.161
2020Jeová AndradeR$ 131.836.987
2021Josemira GadelhaR$ 222.241.420
2024Josemira GadelhaR$ 522.672.141
2025Josemira GadelhaR$ 433.174.415
2026Josemira GadelhaR$ 228.540.441**

*1997: valor histórico aproximado informado neste levantamento.
**2026: valor correspondente exclusivamente ao primeiro semestre.

Os valores apresentados são nominais, sem atualização monetária, e devem ser confrontados com as séries oficiais da Sefa antes de sua utilização como dados contábeis definitivos.

Esses números contam uma história que vai muito além da arrecadação tributária. Revelam o crescimento da atividade econômica, a expansão da mineração, o fortalecimento das instituições municipais e os desafios enfrentados pelas diferentes administrações para acompanhar uma transformação de grandes proporções.

Também demonstram a importância de políticas permanentes de acompanhamento dos índices tributários, de equipes técnicas qualificadas e de uma gestão fiscal capaz de proteger os interesses financeiros do município.

A mineração e o novo lugar de Canaã na economia brasileira

A transformação econômica de Canaã dos Carajás está diretamente relacionada à exploração de suas riquezas minerais.

A implantação do Projeto Sossego representou um dos primeiros grandes impulsos da economia municipal. Posteriormente, o desenvolvimento de outros empreendimentos de mineração, especialmente o complexo de minério de ferro S11D, ampliou significativamente a importância econômica da região.

O município passou a integrar de maneira estratégica a cadeia produtiva da mineração brasileira, com reflexos sobre investimentos, empregos, serviços, infraestrutura, arrecadação tributária e transferências decorrentes da exploração mineral.

É importante destacar que a cota-parte do ICMS representa apenas uma das fontes de receita de Canaã dos Carajás. O município também recebe recursos da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (Cfem), além das transferências constitucionais, receitas tributárias próprias e outras fontes previstas na legislação.

A Cfem, em particular, possui grande relevância para municípios produtores de minerais e ajuda a explicar a capacidade financeira alcançada por Canaã nas últimas décadas.

A combinação dessas receitas transformou o município em um dos polos de maior importância econômica da Amazônia.

Entretanto, o crescimento também impõe responsabilidades.

O desafio de uma cidade que arrecada centenas de milhões de reais não é apenas ampliar suas receitas, mas assegurar que a riqueza produzida em seu território se converta em qualidade de vida, infraestrutura, saúde, educação, saneamento, diversificação econômica e desenvolvimento sustentável.

Afinal, os recursos minerais são finitos. O legado social, econômico e institucional construído a partir deles precisa ser duradouro.

Uma história construída por muitas mãos

A trajetória de Canaã não pode ser atribuída exclusivamente a uma pessoa, a um governo ou a um único empreendimento econômico. Ela começou com os colonos e suas famílias, que enfrentaram as dificuldades de uma região ainda carente de infraestrutura.

Passou pelos integrantes da Comissão de Emancipação, pelos moradores que participaram do plebiscito de 1994 e pelas autoridades responsáveis pela tramitação legislativa e pela criação oficial do município.

Envolveu o deputado Joércio Fontenele Barbalho, autor do PL; o deputado José Francisco, relator da proposição; o presidente da Alepa, Bira Barbosa; e o governador Carlos Santos, que sancionou a lei de criação.

Prosseguiu com os prefeitos e suas equipes administrativas, com os vereadores, servidores públicos, empresários, trabalhadores rurais, profissionais liberais e milhares de pessoas que ajudaram a construir a cidade.

Cada administração enfrentou circunstâncias econômicas, políticas e institucionais próprias.

Cimar Gomes governou no período de instalação e das primeiras dificuldades institucionais.

Anuar Alves acompanhou a organização administrativa e a implantação de grandes investimentos minerais, retornando posteriormente ao Executivo em um novo período de crescimento.

Ribita conduziu uma administração marcada, entre outras iniciativas, pelo fortalecimento da atuação técnica e jurídica na defesa das receitas municipais, com resultados expressivos na evolução da cota-parte do ICMS.

Jeová Andrade administrou o município durante uma fase de expansão econômica e de crescimento das transferências tributárias.

Josemira Gadelha assumiu a prefeitura em um período de grande capacidade financeira municipal, quando a arrecadação de ICMS ultrapassou a marca histórica de meio bilhão de reais anuais.

São diferentes etapas de uma mesma trajetória institucional.

Canaã Dos Carajás: o milagre econômico do sudeste do Pará

Poucas histórias municipais ilustram de maneira tão expressiva as transformações econômicas ocorridas na Amazônia nas últimas décadas.

Canaã dos Carajás nasceu oficialmente em 5 de outubro de 1994. Foi instalada em 1º de janeiro de 1997, enfrentando dificuldades administrativas, escassez de recursos e infraestrutura precária.

Naquele primeiro ano, sua cota-parte do ICMS foi estimada em apenas R$ 300 mil. Em 2024, a mesma receita superou R$ 522 milhões.

A distância entre esses dois números traduz uma transformação histórica, mas a verdadeira dimensão dessa trajetória não está apenas nas cifras. Está na coragem dos pioneiros, na mobilização popular pela emancipação, no trabalho dos servidores, nas decisões administrativas, na capacidade de organização das instituições e na força econômica de um território que passou a ocupar posição estratégica no desenvolvimento do Pará e do Brasil.

Canaã dos Carajás deixou de ser uma pequena vila de colonos para se tornar um dos municípios de maior relevância econômica e mineral do país.

A riqueza de seu subsolo ajudou a transformar seu presente.

A luta pela emancipação permitiu que seus moradores construíssem um governo próprio.

E o desafio das gerações atuais e futuras será transformar essa extraordinária capacidade econômica em desenvolvimento humano, prosperidade duradoura e qualidade de vida para toda a população.

Porque a história de Canaã não é apenas a história de um município que enriqueceu. É a história de uma comunidade que conquistou sua autonomia, enfrentou adversidades e construiu, em poucas décadas, uma nova realidade econômica no coração da Amazônia brasileira.

Carlos Magno
Jornalista — DRT/PA 2627

Historiador e pesquisador da história política e administrativa de Canaã dos Carajás; ex-chefe de gabinete da prefeitura de Canaã; primeiro assessor de comunicação da história administrativa do município; assessor de comunicação em três gestões; ex-ouvidor municipal; especialista em Gestão Pública pela UFPA; especialista em Desenvolvimento, Meio Ambiente e Comunicação Institucional pela FGV.