O silêncio cúmplice: a omissão das mulheres de Canaã diante da barbárie

Entre discursos e celebrações, ausência de posicionamento diante de crime brutal levanta questionamentos sobre empatia e responsabilidade coletiva

Continua depois da publicidade

Enquanto discursos, eventos e homenagens tomam conta de Canaã dos Carajás durante o mês dedicado às mulheres, uma realidade incômoda e perturbadora insiste em ecoar — o silêncio ensurdecedor diante de um crime brutal que jamais deveria ter sido esquecido.

No último sábado (28), o Parque de Eventos Mayko Goulart, no bairro Ouro Preto, foi palco da culminância das comemorações voltadas ao público feminino, com serviços, ações sociais e encerramento festivo ao som do cantor Batista Lima. Um cenário de celebração, empoderamento e valorização.

Mas por trás desse palco iluminado, existe uma sombra pesada — e vergonhosa.

No dia 23 de março, completaram-se 14 anos de um dos casos mais emblemáticos e revoltantes de violência sexual já registrados no município. Um crime que dilacerou uma mulher — e que, ao longo de mais de uma década, foi acompanhado por algo igualmente cruel: o abandono.

A vítima não enfrentou apenas a dor do estupro. Enfrentou também o julgamento, a frieza e, pior, o silêncio de outras mulheres.

Sim, mulheres.

Algumas chegaram ao absurdo de questioná-la por ter denunciado o agressor — como se denunciar um crime hediondo fosse um erro. Como se o criminoso merecesse proteção. Como se a vítima devesse se calar.

E, diante de tudo isso, onde estavam as vozes femininas de Canaã?

Onde estavam os discursos de sororidade?

Onde estavam as lideranças, os coletivos, as representantes que ocupam espaços públicos em nome da defesa das mulheres?

Não estavam.

Nenhuma autoridade constituída se posicionou. Nenhuma manifestação pública de solidariedade. Nem mesmo instituições que pregam valores morais e acolhimento, como a Igreja Católica — da qual a vítima faz parte há décadas — se levantaram em seu favor.

O silêncio foi absoluto.

Recentemente, o Blog do Zé Dudu — que já havia sido o primeiro a denunciar o caso à época — voltou a agir com coragem e responsabilidade jornalística ao divulgar, com exclusividade, a condenação de Jurandir Ferreira, ex-secretário de Governo de Canaã dos Carajás, a oito anos de prisão em regime fechado pelo crime de estupro.

Era o momento esperado para que, finalmente, a cidade reagisse.

Mas não.

Mais uma vez, o silêncio prevaleceu.

E esse silêncio não é neutro.

Ele é cúmplice.

Ele legitima a violência.

Ele envia uma mensagem perigosa: em Canaã dos Carajás, uma mulher pode ser violentada — e ainda assim não contará com o apoio de outras mulheres.

Isso não é apenas omissão. É uma falha moral coletiva.

Enquanto em outros estados, como nos casos emblemáticos do “Cão Orelha”, em Santa Catarina, e da “Capivara do Recreio”, no Rio de Janeiro, foram mulheres que puxaram a linha de frente das denúncias, em Canaã o que se vê é o oposto: retração, indiferença e uma assustadora ausência de empatia.

É inadmissível.

De nada adianta campanhas nacionais, discursos institucionais ou eventos simbólicos se, na prática, as próprias mulheres não se levantam umas pelas outras.

Empoderamento não se faz com palco, luz e música.

Se faz com coragem.

Se faz com posicionamento.

Se faz, sobretudo, com solidariedade.

E Canaã dos Carajás, neste caso, falhou — e falhou feio.

Porque o silêncio, diante de um crime dessa magnitude, não é apenas triste.

É perigoso.

Muito perigoso.