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Natureza

Conheça a espécie de rã que vive apenas na Serra dos Carajás

A “Pseudopaludicola” foi descoberta em 2003, tomando banho de sol no meio da savana sob a qual está guardada a jazida de minério de ferro de N8. Ela, que também já foi avistada na Serra Sul, ajuda o homem como controladora de insetos e pragas.

Disputando um lugar à sombra com cerca de 250 mil pessoas que moram nas cercanias da Floresta Nacional de Carajás e com a indústria extrativa multinacional de minério de ferro, uma invisível moradora se oculta na savana metalófila, onde prospera vegetação rasteira que finca raiz no meio do minério de ferro mais cobiçado do mundo. A cidadã é tímida, furtiva e só é encontrada na Serra dos Carajás. Não há exemplar em qualquer outro lugar distante do mundo.

Justamente por ser pouco conhecida, essa moradora já consta da categoria “em perigo” na lista negra dos habitantes marcados para sumir do mapa no Pará. Seu nome de batismo é pouco usual e no cartório científico onde foi registrada constatou-se que ela possui ao menos 12 parentes próximos distribuídos pela América do Sul, nove dos quais no Brasil. Ela é a rã “Pseudopaludicola canga”.

Neste domingo (11), o Blog do Zé Dudu levantou um pouco da história desse anfíbio, que pertence à família Leiuperidae e é uma das 68 espécies de anfíbios que dividem espaço na Floresta Nacional de Carajás, entre os quais 64 anuros (outras de suas parentes rãs, assim como sapos e pererecas distintos) e quatro cecílias.

Descoberta da rã da canga

O ano era 2003, e Parauapebas era o único município que produzia minério de ferro no Pará, ao volume de 59 milhões de toneladas por ano. Até então, só a porção norte de Carajás, ou Serra Norte, era quem guardava os segredos mineralógicos consagrados até hoje no senso comum. Mas, para muito além da “sabedoria popular” em relação aos recursos minerais, a mineradora multinacional Vale esticou seus tentáculos prospectando o solo de toda a região e sempre soube, com conhecimento acumulado desde o final da década de 1960, da poderosa Tabela Periódica escondida debaixo dos pés de quem mora nessa parte do sudeste do Pará.

Foi numa das campanhas para localização de minério, sempre acompanhadas por expedições de profissionais da área ambiental, que o biólogo e pesquisador Ariovaldo Antônio Giaretta e seu orientando de mestrado e também biólogo Marcelo Nogueira de Carvalho Kokobum identificaram, pela primeira vez, uma rã estranha. Eles decidiram estudá-la e compará-la com outras rãs do gênero “Pseudopaludicola” até então conhecidas e concluíram: o anfíbio encontrado na savana de Carajás, sobre as ricas jazidas de minério de ferro de Parauapebas, era mesmo espécie nova, uma celebração para a ciência.

A constatação rapidamente virou fofoca no mundo científico e naquele ano mesmo, 2003, foi parar em artigo publicado em importantes revistas de Zoologia do mundo anunciando a descoberta.

Vida discreta e reservada

Para a maioria da população, rã, sapo e perereca é tudo a mesma coisa e, inadvertidamente, merecem ser exterminados. Mas não são — e nem toda rã é uma mesma rã — tampouco devem ser eliminadas de forma hedionda. Rãs, sapos e pererecas são os maiores auxiliares naturais do homem no combate a, por exemplo, muriçocas e mosquitos transmissores de doenças. A eliminação de um anuro qualquer da natureza pode levar o ecossistema a um desequilíbrio catastrófico.

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Por opção, a “Pseudopaludicola canga” não gosta de contato com o bicho-homem e seu refúgio preferido são lagoas, brejos e poças temporárias da região onde se assenta o corpo mineral de N8, um dos nove “N” dentro do município de Parauapebas que contêm minério de ferro. A rã também já foi visualizada tomando banho de sol nas cangas da Serra Sul, que são as áreas de minério localizadas dentro dos limites de Canaã dos Carajás.

Um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) produzido em 2012 sobre ecologia trófica de espécies de anuros, publicado pela Universidade Federal do Pará (UFPA), revela que a rã de Carajás é especialista em consumir insetos da ordem Díptera, da qual fazem parte vilões que infernizam a vida do parauapebense, como moscas, mosquitos, varejeiras, pernilongos, borrachudos e mutucas. O conjunto desses insetos, indica o estudo, compõe 17% da dieta da “Pseudopaludicola canga”. Mas a comida de que a rã mais gosta são os colêmbolos, pragas comuns e inofensivas, mas que se tornam bastante incômodas em ambientes fechados e mofados.

Diversidade de anfíbios no país

Atualmente, são reconhecidas no Brasil 1.026 espécies de anfíbios, 988 das quais pertencentes à ordem Anura, praticamente 15% da diversidade mundial. Grande parte dessa biodiversidade pode ser explicada pelos diversos ecossistemas tropicais e subtropicais do país, principalmente Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal. Contudo, o desmatamento, o avanço desenfreado da fronteira agropecuária, a mineração, as queimadas e os grandes projetos (barragens, hidrelétricas, estradas, indústrias, assentamentos e empreendimentos imobiliários) são apontados como as principais causas de destruição de habitats no Brasil.

Pesquisas mostram que 43% das espécies de anfíbios estão sofrendo alguma forma de declínio populacional, com cerca de 33% das espécies estando globalmente ameaçadas, e 122 espécies já se encontram possivelmente extintas.

No caso da “Pseudopaludicola canga”, estudos sobre a espécie — a maioria concentrada na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) — indicam que seja provável que a rã habite lugares fora do domínio até então conhecido de Carajás, isto é, há possibilidade que não seja necessariamente endêmica e que sobreviva em áreas do oeste maranhense e no circuito Araguaia-Tocantins, no Pará.

De qualquer modo, como é espécie ainda pouco conhecida, sua preservação é fundamental, levando-se em conta que sua área de descoberta, a Floresta Nacional de Carajás, se insere na mesorregião sudeste do Pará, uma das partes mais devastadas da Amazônia.

 

Comentários ( 3 )

  1. Bom dia. Faço parte da equipe de licenciamento de n1 e n2 e ressalto que a espécie também foi encontrada durante o levantamento de campo tanto em n1 quanto n2, não sendo exclusividsde de n8, mas de fato endêmica de Carajás. Parabéns pela divulgação!

  2. O eterno professor Giaretta está muito feliz com a lembrança. O texto fez sucesso aqui no Departamento de Biologia Genética da Unicamp, onde ele tem muitos orientandos no estudo de Anuros. Que se produzam mais reportagens assim!

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